A Glória e a Graça (2017) Poster

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Título original: A Glória e a Graça
Ano de produção: 2017
Nacionalidade: Brasil
Gênero: Drama / Novos Filmes
Dirigido por: Flávio R. Tambellini
Com: Carolina Ferraz, Sandra Corveloni, Sofia Marques
Duração:
Qualidade do vídeo: HD
Áudio: Português
Visitas: 1 990

Quando foi anunciado o projeto sobre uma mulher com uma doença terminal reencontrando sua irmã travesti, foram notadas algumas reticências na imprensa, principalmente pela escolha de Carolina Ferraz, uma mulher cisgênero, para interpretar a travesti. Diante do resultado final, no entanto, a prótese na boca da mulher cis para parecer masculina constitui o menor dos problemas. A Glória e a Graça - FotoO diretor Flávio Ramos Tambellini deseja construir um drama delicado, sobre a aceitação das diferenças e a possibilidade de novas configurações de família – duas ideias louváveis – mas o faz a partir de um texto fraco. A doença de Graça (Sandra Corveloni) é anunciada de modo tão brusco que despertou risos na sala de cinema; a sua aproximação com a irmã Glória ocorre de modo rápido demais; a caracterização da mãe neohippie de valores conservadores – cuja filha se chama “Papoula” – beira a paródia. Tudo isso é coroado por diálogos didáticos, explicando o que a imagem não consegue mostrar por si só. A construção superficial de personagens prejudica a verossimilhança na trama. O único motivo para Graça procurar a irmã com quem perdeu contato há 15 anos é o fato de não ter mais ninguém para cuidar de suas crianças, mas logo se descobre a existência de uma amiga próxima, descrita como “quase uma irmã”, que mora ao lado e conhece as crianças muito bem. O bullying caricatural sofrido por Papoula na escola parece extraído de comédias como Meninas Malvadas, e a ínfima importância dada a uma atriz coadjuvante transexual deixa a impressão amarga de que a personagem integra o elenco apenas por cota de representatividade, apesar do bom trabalho da atriz. A direção de fotografia chama a atenção. Talvez a equipe tenha decidido que Graça pratica a cromoterapia, mas o lar onde se passa grande parte da trama remete a um buffet infantil: a cozinha tem luzes verdes profundas, um quarto é totalmente amarelo, o outro é azulado, o corredor tem luzes vermelhas... Mesmo nas cenas externas, alguns efeitos aquáticos e as cores extremamente saturadas dão a impressão de estarmos num universo fantástico, edulcorado, muito distante das dificuldades palpáveis de se enfrentar uma doença ou o preconceito social. A Glória e a Graça - FotoTambellini filma suas cenas multicoloridas com os enquadramentos mais fechados possíveis, tendo como limite os rostos das duas atrizes. A estética claustrofóbica impede que os espaços importantes da casa, da escola e do próprio Rio de Janeiro exerçam uma influência na tristeza e na solidão das duas mulheres. Quando Glória e Papoula encontram um novo amor – solução fácil para sugerir um final feliz – a câmera se limita aos planos de conjunto, com ambos lado a lado, nos terços exatos do quadro. A rigidez das imagens transparece a falta de criatividade da mise en scène. A representatividade, sim, merece ser questionada no projeto. A cada novo filme sobre transexuais ou travestis interpretadas por atores e atrizes cis, perde-se uma nova oportunidade de dar protagonismo a estas figuras marginalizadas. Se a intenção é defender a inclusão social, por que não começar com o próprio elenco? Por mais que Carolina Ferraz efetue um trabalho competente – e que Jeffrey Tambor, em Transparent, ou Jared Leto em Clube de Compras Dallas tenham se saído muito bem como mulheres – ressente-se a falta de os projetos botarem em prática o discurso que defendem. A prótese na boca de Carolina Ferraz, para parecer mais masculina, incomoda pela necessidade de relembrar que ela nasceu com corpo diferente. Por que é tão importante insistir na diferença entre “aparência de mulher” e “aparência de homem”? A Glória e a Graça - FotoOutro aspecto do respeito à identidade de gênero incomoda em A Glória e a Graça. A travesti ouve da irmã alguns dos piores preconceitos – sugerindo que ela tenta “empurrar goela abaixo” sua identidade, ou que vai educar um garoto como se fosse mulher – mas a personagem nunca responde às acusações, e o roteiro simplesmente as ignora. Glória precisa repetir o tempo inteiro que é honesta e trabalhadora, como se fosse uma espécie de compensação por ser travesti. O discurso “travesti, porém trabalhadora” é análogo ao preconceituoso “pobre, porém honesto”. A crítica à prostituição também mereceria maior aprofundamento: o roteiro sugere que as moças venderiam seus corpos não pela falta de oportunidades, mas por uma espécie de carência afetiva ou instabilidade emocional. Rumo à conclusão, o roteiro reforça o tom melodramático, criando uma série de reviravoltas e coincidências difíceis de acreditar, mas que funcionam na intenção de extrair lágrimas do espectador. O filme deseja mostrar que a irmã travesti pode ser uma mãe perfeita para Papoula e Moreno, e o faz em detrimento da mãe biológica, ainda viva, que perde importância no roteiro enquanto a tia das crianças já assume as funções de cuidados diários. É uma pena que um projeto com teor humano tão complexo tenha recebido um tratamento pouco cuidadoso. Boas intenções nunca foram suficientes para fazer um bom filme.

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